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Daseinsanálise e psicanálise: um acerto de contas

  • Foto do escritor: jessepsi
    jessepsi
  • 7 de jan. de 2022
  • 5 min de leitura

Neste texto vou tentar colocar de forma breve o que percebo da relação entre daseinsanálise e psicanálise. É possível encontrar artigos e livros¹ que tratam do assunto, mas em nenhum daqueles que tive acesso encontrei alguns pontos que, na minha opinião, são evidentes e importantes para quem se encontra no exercício clínico. Para contextualizar o “na minha opinião” acho importante dizer que já na graduação em psicologia tive a oportunidade de estagiar sob a orientação de uma psicanalista e uma daseinsanalista. Apesar delas não se reconhecerem como tais penso que a lida clínica delas merece esse reconhecimento em alguma medida, pois uma pensava a clínica a partir de Freud e Melanie Klein e a outra a partir de Heidegger. Depois da formação me ocupei da leitura sobre fenomenologia, hermenêutica e daseinsanálise por três anos e meio e atualmente estou retomando a psicanálise por meio de Lacan para conduzir a clínica de um modo que corresponda aos meus achados. Espero tratar disso em um outro momento com mais detalhes, mas por ora posso dizer que a minha opinião surgiu de uma prática associada ao estudo teórico.


A daseinsanálise clínica faz uso de vários recursos práticos da psicanálise. O maior exemplo disso é o uso da associação livre que também está presente em várias abordagens da psicologia com algumas diferenças nominais ou de aplicação. A conversação que se dá na psicologia fenomenológica-existencial, na fenomenológica-hermenêutica e na daseinsanálise é livre, não se determina para o paciente por onde ele deve começar e as intervenções feitas pelo terapeuta/analista na fala do paciente buscam esclarecer o sentido, promover a continuação do discurso ou interpretar. Outro exemplo é a própria interpretação que, apesar de ser elencada como prática não adotada pela psicologia fenomenológica-existencial e a daseinsanálise desenvolvida por Medard Boss, está presente de um modo específico, uma vez que a fenomenologia na clínica remete aos existenciais heideggerianos, sartreanos, kierkegaardianos e em última análise a uma compreensão outra. Isso revela que, mesmo sem fazer uso da hipótese do inconsciente, pode-se dizer que a base da práxis da daseinsanálise, da psicologia fenomenológica-existencial e da psicologia fenomenológica-hermenêutica reside no ato freudiano de escutar, fazer algo daquilo que se escutou e dizer ou não algo sobre o que se escutou de um outro lugar. Assim, uma vez que atuam no campo inaugurado pelo ato freudiano, psicanálise e a daseinsanálise têm a mesma origem fundamental.


Apesar da mesma origem elas se diferenciam nas bases teóricas e nas referências hermenêuticas. No âmbito teórico a psicanálise se orienta pelos textos freudianos e os autores das linhas derivadas, já a daseinsanálise parte da obra Ser e Tempo de Heidegger e autores como Binswanger, Boss e Holzhey-Kunz. No âmbito hermenêutico a psicanálise encontra na noção de inconsciente o referente de diversos fenômenos da clínica como a transferência, a repetição, o chiste e outros. Já a daseinsanálise não nomeia da mesma maneira tais fenômenos, mas os maneja tendo como referente os existências heideggerianos como ser-no-mundo, ser-com, abertura e outros. É nesses dois âmbitos que as diferenças se mostram e mesmo os contrastes, se submetidos a uma investigação criteriosa, não são tão nítidos como se imagina.


Agora acredito que seja importante sintetizar o que mostrei até aqui desta forma: a maneira de tratar o sofrimento psíquico é a mesma na psicanálise e na daseinsanálise, pois ambas operam por meio da fala, portanto a diferença entre uma e outra é apenas de ordem teórica e hermenêutica. Isso pode dar espaço para a seguinte crítica: se há diferenças teóricas e hermenêuticas, há diferença na práxis, pois não há prática dissociada da teoria. Tal enunciado pressupõe que na clínica a teoria e as referências hermenêuticas ditam a práxis, mas neste caso isso não se aplica, pois no campo freudiano o ato enseja o dizer e o calar que surgem no depois.


Estamos no campo freudiano, seja na psicanálise ou na daseinsanálise, tanto é assim que os primeiros daseinsanalistas foram psicanalistas. Para simplificar isso de um modo lacaniano podemos usar esta expressão matemática:


1+0/1 = 1


1 é a psicanálise, 0/1 é a daseinsanálise, + é o sinal de soma, / é o sinal de divisão, = é o sinal de igual. Freud inaugurou uma práxis em resposta à demanda clínica e o 1 marca esse início. Heidegger propôs a analítica do dasein como uma resposta à demanda filosófica e lá desta outra margem foi chamado (+) para respondeu à demanda clínica. A resposta produz uma divisão e o 0 da expressão resgata o instante anterior ao ato freudiano e o /1 indica a resposta heideggeriana. O resultado desta operação é psicanálise e não poderia ser diferente, pois do ponto de vista cronológico e lógico, se estamos tratando da clínica da palavra, a psicanálise é o gesto inaugural do analista. A soma feita por aqueles que foram ao encontro da analítica do dasein para pensar a clínica psicanalítica não produz uma saída do campo freudiano do ponto de vista pragmático, apesar de representar para alguns um rompimento seguido do surgimento de uma linha independente.


Para dar consequência aos apontamentos que fiz e respeitar a história da daseinsanálise é necessário resgatar a distinção feita por Heidegger em novembro de 1965 e que pode ser consultada na obra Seminários de Zollikon.² Ao discutir sobre algumas críticas direcionadas à daseinsanálise, ele demarcou uma diferença importante entre a analítica do dasein e a daseinanálise. A primeira se ocupa da interpretação da questão do ser em seu caráter ontológico e a segunda do aspecto ôntico do encontro entre existentes. Dessa forma, esta distinção demarca uma diferença entre a filosofia de Heidegger e a adoção desta filosofia como fundamento hermenêutico de uma clínica do sofrimento humano.


Diante de tudo isso que foi apresentado a pergunta inevitável é: então que diferença faz adicionar a analítica do dasein na psicanálise? A diferença que fará diz respeito a cada um que fizer essa adição, pois não se trata de atualizar um software, de aumentar o diâmetro de uma roda ou trocar o óleo das engrenagens. Particularmente penso que a adição da analítica do dasein na psicanálise pode advertir o analista, mais uma vez e de um outro ângulo, das nuances de ser humano. Esta advertência acontece quando não nos fechamos para o apelo de ter de ser e já ser a cada instante.



Referências


¹Holzhey-Kunz, Alice. Daseinsanálise: o olhar filosófico-existencial sobre o sofrimento psíquico e a sua terapia. Trad.: Marco Casanova – Rio de Janeiro: Via Verita, 2018.


²Heidegger, Martin. Seminários de Zollikon: protocolos, diálogos, cartas. Ed.: Medard Boss. Trad.: Gabriellla Arnhold, Maria de Fátima de Almeida Prado; revisão: Maria de Fátima de A. P. e Renato Kirchner. 3ª ed. rev. – São Paulo: Escuta, 2017.





 
 

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