Guqin: sobre um artesão e uma faísca banal.
- jessepsi
- 22 de dez. de 2024
- 4 min de leitura
Recentemente dois vídeos curtos (reels) no Instagram chamaram a minha atenção.
O primeiro mostrava um artesão chinês produzindo um guqin (@cnshanbai), instrumento de cordas lindo com 3 mil anos de tradição e um som maravilhoso. Todo o processo de produção, que utiliza como matéria prima ossos, madeira, seiva, tripas e seda, demanda um longo tempo de trabalho e esforço (mais de um ano) e impressiona pelo cuidado, a habilidade e a paciência do artesão. O vídeo editado faz parecer uma mágica.
O segundo reels era uma campanha de marketing de um aplicativo de "leitura". O vídeo mostrava um diálogo entre duas pessoas, uma perguntando como a outra conseguia ler tantos livros em tão pouco tempo. Ela respondeu: "Ah, eu não leio, eu escuto". Para isso ela utilizava um aplicativo que, ao fotografar a página do livro, reproduzia em áudio o conteúdo em uma velocidade de até 4x. A ideia é otimizar o tempo e ampliar a capacidade da pessoa adquirir conhecimento. O mais interessante deste vídeo curto é o momento em que a pessoa que está ouvindo o livro na velocidade 4x diz: "Prefiro a velocidade 4x já que eu não tenho muita capacidade de atenção." Fico me perguntando: como alguém pode ter atenção escutando algo na velocidade 4x?
Para o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, vivemos em um mundo onde as "práticas que demandam dedicação de tempo prolongada estão desaparecendo"(2022, p. 22). Tanto a produção artesanal do guqin quanto o app de leitura são exemplos disso, pois mostram situações que enfrentam dificuldades para continuarem existindo. Isso porque em um mundo cada vez mais acelerado, dificilmente teremos tempo para ler e a produção industrial coloca à disposição das pessoas uma quantidade maior de guqins em menos tempo, substituindo a produção artesanal. Com isso, gasta-se menos tempo para ter acesso a mais informações e o instrumento fica mais barato. Mas quais as consequências disso?
É inegável que ampliar o acesso de um instrumento que no passado estava restrito aos mais ricos ameniza a desigualdade, mas ao mesmo tempo compromete a qualidade, a beleza e a riqueza dos detalhes materiais e simbólicos do instrumento. O guqin não é um simples instrumento, ele tem uma história, está envolvido em simbolismos e foi nomeado Patrimônio Cultural Intangível Imaterial da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO) em 2003 (Hong, 2014). Em relação à sua produção, todos os fatores que a envolve, como a madeira utilizada, a seda e espessura das cordas, cada parte e o formato, têm sua história e correlação com princípios filosóficos e valores culturais que no passado eram transmitidos a quem estudava sua arte. Segundo Hong, todas "as partes do guqin têm pois o seu significado filosófico específico, o qual nos permite perceber que, idealmente, o guqin visa a educação das pessoas" (Hong, 2014, p. 34). Dessa forma, a fabricação industrial do guqin, muito mais rápida que a do artesão do reels, ao utilizar menos tempo, apaga em alguma medida a história deste instrumento e do processo ritual por meio do qual passava quem se iniciava na arte do guqin.
Assim como o guqin, a leitura é uma atividade humana milenar e exige esforço, dedicação prolongada e também tem enfrentado dificuldades para se manter. Ao longo da história o significado da leitura apresentou variações, pois ela "é um indicador do avanço da própria humanidade"(Fischer, ano, p.11) e como tal reflete as condições do contexto em que seus praticantes estão inseridos. Na antiguidade a leitura estava associada à declamação e competia a poucos que, diante dos ouvintes atentos, enunciava a verdade que impactava a vida da comunidade (Fischer, 2006). Hoje, constantemente somos expostos a informações das mais variadas formas (textos, vídeos e sons) em todos os lugares e, seja porque buscamos ou não, consumimos dados fragmentados praticamente a todo instante. Dessa forma, a informação superficial, dado imediato que se realiza no instante, dá ao leitor a impressão de dominar a verdade, mas não passa de satisfação da curiosidade (Han, 2023). Dessa forma, ouvir diversos livros na velocidade 4x, longe de possibilitar o saber obtido pela leitura e releitura do texto grafado, abole a leitura e exalta o não-saber.
A produção artesanal substituída pela industrial amplia o acesso ao guqin, mas faz da atividade meio (educação) uma atividade fim (produção), pois o trabalhador da indústria dificilmente conhecerá a história daquilo que produz e muito menos será incluí-lo por meio dela em uma narrativa maior da qual passaria a fazer parte. A conversão do texto em áudio acelerado, apesar de retomar a fala do passado remoto, faz do conhecimento, chama roubada dos deuses por Prometeu e dada à humanidade, uma faísca banal.
Referências Fischer, S. R. (2006). História da leitura. Trad. Cláudia F.. - Ed. UNESP.
Han, B. (2023). A crise da narração. Vozes. https://plataforma.bvirtual.com.br
Han, B. (2022). Não-coisas: reviravoltas do mundo da vida. Trad. Rafael R. Garcia. - Petrópolis, RJ: Vozes.
Hong, F. (2014). A Cítara Antiga guqin como Simbolismo Cultural da Tradição Chinesa. Dissertação de Mestrado em Estudos Interculturais Português/Chinês. Disponível em: https://repositorium.sdum.uminho.pt/handle/1822/33109. Acesso em 3 de novembro de 2024.
